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Pós-parto · 6 min de leitura

Perder urina depois do parto é comum, mas não é normal

Muitas mulheres perdem urina ao tossir, rir ou pegar no bebé ao colo e acham que faz parte. É comum, mas não tem de ser para sempre: o pavimento pélvico pode ser avaliado e reeducado.

Joana Alves
Fisioterapeuta · Osteopata · Acupuntora ·

Espirra, ri-se com uma amiga, levanta o carrinho do bebé para a bagageira e sente uma pequena perda de urina. Pensa que é natural, que «é do parto», que vai passar sozinho. Às vezes passa. Muitas vezes não.

Perder urina depois do parto é muito comum. Mas comum não quer dizer normal. É um sinal de que o pavimento pélvico precisa de atenção, e a boa notícia é que há muito que se pode fazer.

O que acontece ao pavimento pélvico na gravidez e no parto

O pavimento pélvico é um conjunto de músculos, ligamentos e tecido conjuntivo que fecha a bacia por baixo, como uma rede. Sustenta a bexiga, o útero e o intestino, ajuda a controlar a urina, os gases e as fezes, e participa na vida sexual e na estabilidade da coluna.

Durante a gravidez, esta rede suporta um peso que aumenta mês após mês. As hormonas tornam os tecidos mais elásticos, para preparar o corpo para o parto. A postura muda, a respiração muda, a barriga estica.

No parto vaginal, os músculos do pavimento pélvico esticam muito para deixar passar o bebé. Pode haver episiotomia, lacerações, uso de ventosa ou fórceps, ou uma fase de expulsão longa. Numa cesariana, o pavimento pélvico não é atravessado pelo bebé, mas carregou a gravidez inteira, e a cicatriz abdominal também altera a forma como o tronco gere a pressão.

Por isso, perder urina depois do parto pode acontecer em qualquer tipo de parto.

Os tipos de perda mais frequentes

Nem todas as perdas são iguais, e perceber qual é a sua ajuda a orientar o tratamento.

  • Perdas de esforço: acontecem quando a pressão dentro da barriga sobe de repente, ao tossir, espirrar, rir, saltar, correr ou levantar peso.
  • Urgência: uma vontade súbita e forte de urinar, difícil de adiar, por vezes com perda antes de chegar à casa de banho.
  • Perdas mistas: uma combinação das duas.

Pode também notar outros sinais associados: dificuldade em segurar gases, sensação de peso na vagina, desconforto nas relações sexuais ou dor na cicatriz. Tudo isto faz parte do mesmo território e merece ser avaliado em conjunto.

O que pode estar na raiz

Na Raiz da Cura, não olhamos só para o músculo «fraco». Procuramos perceber porque é que o sistema deixou de funcionar bem. Algumas das causas possíveis:

  • Músculos que perderam força ou coordenação depois do estiramento do parto, e que já não contraem a tempo quando a pressão sobe.
  • Músculos demasiado tensos, sobretudo depois de lacerações ou de dor, que não conseguem contrair nem relaxar por completo. Um músculo tenso também pode falhar.
  • Cicatrizes (perineais ou de cesariana) com pouca mobilidade, que alteram a forma como os tecidos à volta trabalham.
  • Respiração e abdómen: depois da gravidez, a forma de respirar e de usar a parede abdominal muda. Se o diafragma, os abdominais e o pavimento pélvico não trabalham em equipa, a pressão acaba por «empurrar» para baixo.
  • Postura e rotinas do dia a dia: muitas horas a amamentar curvada, a carregar o bebé de um só lado, a fazer força ao evacuar.
  • Obstipação, frequente no pós-parto, que sobrecarrega o pavimento pélvico.

Cada mulher tem uma combinação diferente. É por isso que exercícios genéricos nem sempre chegam.

Como podemos ajudar

A fisioterapia pélvica começa por uma conversa: como foi a gravidez, o parto, como está o seu dia a dia, o que sente e quando. Depois, com o seu consentimento, fazemos uma avaliação do pavimento pélvico, que pode incluir uma avaliação interna, sempre explicada antes e só se se sentir confortável.

A partir daí, o acompanhamento pode incluir:

  • Reeducação do pavimento pélvico: aprender a contrair e a relaxar corretamente, com a força e o tempo certos, e depois integrar isso nos gestos do dia a dia.
  • Trabalho respiratório e abdominal, para que a pressão seja bem gerida ao tossir, levantar o bebé ou voltar ao exercício.
  • Terapia manual em cicatrizes, tecidos tensos e zonas que perderam mobilidade.
  • Osteopatia visceral, quando faz sentido, para olhar para a relação entre os órgãos da pélvis e do abdómen e a sua mobilidade.
  • Orientação prática: posições para amamentar, para evacuar, como pegar no bebé e como regressar à atividade física com segurança.

Muitas mulheres sentem melhoria ao longo do acompanhamento, mas o ritmo é de cada uma. O nosso trabalho complementa o acompanhamento do seu obstetra, ginecologista ou médico de família, e não o substitui.

O que pode fazer já

  • Não deixe de beber água para «perder menos». A urina muito concentrada irrita a bexiga e pode piorar a urgência.
  • Evite ir à casa de banho «por precaução» a toda a hora. Treina a bexiga a pedir mais vezes.
  • Expire ao fazer esforço: ao levantar o bebé ou o ovo do carro, solte o ar devagar em vez de suster a respiração.
  • Cuide do intestino: fibra, água e um banquinho debaixo dos pés na sanita ajudam a não fazer força.
  • Não comece a correr ou a saltar só porque passaram seis semanas. Antes de voltar ao impacto, vale a pena uma avaliação.

Quando procurar ajuda

Procure uma avaliação de fisioterapia pélvica se:

  • continua a perder urina, gases ou fezes semanas depois do parto;
  • sente peso, pressão ou uma «bola» na vagina;
  • tem dor nas relações sexuais ou na cicatriz;
  • quer voltar ao exercício e não sabe se o seu corpo está pronto.

Fale com o seu médico ou procure cuidados de saúde com rapidez se tiver febre, ardor ao urinar, sangue na urina, dor intensa na zona da cicatriz ou do períneo, sinais de infeção (vermelhidão, calor, corrimento com mau cheiro) ou se deixar de conseguir urinar.

Não tem de se habituar

Muitas mulheres passam anos a usar pensos «por segurança» e a deixar de fazer coisas de que gostam. Não precisa de se habituar a isso. Ouvir o que o corpo está a comunicar é o primeiro passo.

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